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Crítica: “A Máquina” quando o tempo volta a girar com poesia

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Foto: Taciana Vitti

Nova montagem dirigida por João Falcão traz Agnes Brichta e o Coletivo Ocutá em um espetáculo que emociona pela simplicidade, pela força coletiva e pela delicadeza com que celebra o amor e o próprio teatro.

Há peças que resistem ao tempo — e há aquelas que o reinventam. A Máquina, adaptação de João Falcão a partir do livro de Adriana Falcão, é uma dessas obras que continuam vivas porque tocam em algo essencial: o amor, o desejo e a passagem do tempo.

Em cartaz no Teatro Iquê, em São Paulo, a nova montagem idealizada por Clayton Marques é um presente para quem acredita na força transformadora da arte. A peça mistura humor, poesia e filosofia em um espetáculo leve e encantador, que nos lembra que o teatro ainda é o lugar onde o impossível acontece diante dos nossos olhos.

Uma história que atravessa gerações

A trama é simples e profunda. Antônio ama Karina, e para impedir que ela vá embora, decide construir uma máquina do tempo capaz de trazer o mundo até sua cidade. É uma história sobre amor e invenção, mas também sobre coragem e permanência — sobre o desejo humano de parar o tempo quando algo é bonito demais para terminar.

Sob a direção poética e precisa de João Falcão, o espetáculo encontra um equilíbrio perfeito entre lirismo e humor. O texto soa atual, com diálogos que brincam com o tempo e com o silêncio, e pausas que falam mais do que as palavras. Há ritmo, leveza e emoção em cada cena.

Agnes Brichta e os quatro Antônios

Em cena, Agnes Brichta é pura entrega. Sua Karina é doce e firme, serena e vibrante. Agnes tem o raro dom de viver o texto com o corpo inteiro — cada olhar e cada gesto são carregados de emoção. Ela não interpreta: habita a personagem, e faz o público acreditar em cada instante dessa história de amor e despedida.

Ao redor dela, os quatro Antônios — Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto, todos do Coletivo Ocutá — dão vida ao coração pulsante da peça. São múltiplas versões de um mesmo sentimento, diferentes expressões do amor que quer resistir ao tempo.

O trabalho coletivo é impressionante: há sintonia, ritmo e entrega. Os atores se completam em cena, alternando humor e lirismo com naturalidade. O resultado é um espetáculo de energia contagiante e de rara sensibilidade.

O tempo como cenário

O palco giratório do Teatro Iquê transforma-se em uma verdadeira metáfora do tempo. Cada movimento de luz, cada deslocamento, reforça a ideia de que o mundo está em constante mudança — e que o amor, de alguma forma, tenta acompanhá-lo.

A cenografia é minimalista e simbólica. A luz e a presença física dos atores bastam para construir paisagens inteiras. A trilha sonora, delicada e envolvente, acompanha o ritmo da narrativa como uma respiração compartilhada. Tudo está em harmonia: técnica e emoção se unem para criar uma experiência sensorial e poética.

Um espetáculo sobre amor e reencontros

A Máquina fala sobre o amor, mas também sobre o próprio teatro. Fala sobre o poder de se reunir, de olhar para o outro, de acreditar novamente. É uma montagem que homenageia o passado sem se prender a ele — uma releitura viva, vibrante e afetuosa.

Há algo simbólico em ver o texto de Adriana Falcão renascer no palco com essa nova geração. E há algo profundamente tocante em perceber como o espetáculo se transforma em um ponto de encontro: entre artistas e público, entre o ontem e o agora, entre o real e o imaginado.

Quando Agnes Brichta e os quatro Antônios dividem o palco, o tempo parece realmente parar. Há uma energia de recomeço, uma lembrança de que o amor ainda é o motor mais poderoso que existe. É impossível sair do teatro sem carregar um pouco dessa leveza.

A Máquina voltou a girar — e o faz com beleza, sutileza e verdade. É um espetáculo que emociona sem artifícios, que faz rir e pensar, que acolhe o público e o convida a sonhar de novo.

Em tempos acelerados, a peça nos lembra que o tempo pode ser implacável, mas a arte é mais veloz. E quando ela encontra o amor, tudo para — apenas para nos permitir sentir.

Taciana Vitti

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