Hoje assisti A Máquina pela sexta vez. Seis encontros com a mesma história – e, no entanto, o espanto permanece intacto. Há espetáculos que se consomem na primeira visão. Mas esta montagem, dirigida por João Falcão a partir do livro de Adriana Falcão, resiste ao tempo porque se renova a cada sessão – e porque eu também me renovo a cada sessão.
Voltar à plateia é como reencontrar um velho amigo que mudou sutilmente ou descobrir, finalmente, o que eu não havia visto da primeira vez. A cada nova sessão, um detalhe antes invisível se apresenta: um riso que nasce um pouco mais cedo, um silêncio que se prolonga e rasga camadas do meu próprio pensamento, um movimento de braço que desloca o destino inteiro da cena, uma troca de olhar que redefine o ‘agora’. Esses gestos quase imperceptíveis fazem a engrenagem da máquina ganhar novas velocidades. É o mesmo espetáculo, mas nunca é o mesmo espetáculo. A peça muda – e eu também mudo com ela.
E há o acolhimento – tão raro quanto precioso – de toda a produção: o toque humano escondido atrás das luzes e sombras, a gentileza com que o público é recebido, a reverência com que a equipe trata esse encontro. Saber que nas próximas semanas estarei de volta ao palco giratório, à energia viva da plateia e à pequena cidade que nasce diante dos nossos olhos me dá um motivo além de ‘ver outra vez’: dá o desejo de sentir outra vez, de me deixar atravessar por aquilo que, naquele momento, a peça me convida a ser.
É também o amor como motor – não apenas o amor narrado entre Antônio e Karina, mas o amor pelo teatro, pelo coletivo que trabalha em silêncio para que o milagre aconteça, pelo que nos move antes que o tempo nos arraste. Quando Agnes Brichta e os quatro Antônios – Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto – dividem o palco, algo inevitável acontece: o tempo diminui a marcha, o coração acelera e o mundo inteiro parece caber naquele instante. Porque se há algo mais rápido que o tempo, é a arte. E quando ela se alia ao amor, a máquina gira – e gira mais forte. Mesmo depois da sexta vez. Talvez ainda mais depois da sexta vez.
FICHA TÉCNICA
- Baseado no livro de: Adriana Falcão
- Adaptação e Direção: João Falcão
- Elenco: Agnes Brichta; Alexandre Ammano; Bruno Rocha; Marcos Oli; Vitor Britto (Coletivo Ocutá)
- Idealização/Produção: Clayton Marques
- Cenografia: João Falcão e Vanessa Poitena
- Figurino: Chris Garrido
- Direção Musical: Ricco Viana
- Desenho de Luz: Cesar de Ramires
SERVIÇO
Espetáculo: A Máquina
Local: Teatro Iquê — Rua Iquiririm, 110, Vila Indiana, São Paulo (SP)
Horários: Quinta e sexta às 21h; sábado às 18h e 21h; domingo às 18h.
Bilhetes: via Sympla/produção. Duração aproximada: 70 minutos. Classificação: livre.







