Início Vladimir Brichta Vladimir Brichta para a Revista Velvet set/out 2026

Vladimir Brichta para a Revista Velvet set/out 2026

62
0

O primeiro monólogo, o ninho vazio e os desafios de
uma nova fase. Aos 50 anos, o ator revisita a própria
relação com a paternidade e ensaia responder um
pouco mais às próprias expectativas

 

Quando entro no camarim, Vladimir Brichta já está se
preparando para a sessão de fotos. Chegou antes do
horário combinado, experimentou todos os looks da
produção e agora tira o brilho do rosto. Antes que eu faça a
primeira pergunta, quer saber do meu pé, imobilizado por uma
bota ortopédica. O que aconteceu, como foi a cirurgia, quanto
tempo falta para a recuperação. Só depois aceita falar de si.

O assunto é “O Menor Palco do Mundo”, seu primeiro monólogo,
que estreia em outubro no Teatro Vivo, com direção de Luiz Felipe
Reis. Pergunto se existe um lugar onde se sente mais à vontade
como ator. Vladimir não escolhe entre teatro, cinema ou TV, mas
a voz muda de tom quando fala da experiência de estar em cena.
“Viver aquilo junto com as pessoas tem algo de mais religioso do
que fazer um trabalho e deixá-lo disponível no streaming.” Também não abre mão do processo de criação que esse tipo de
arte permite. “Uma escova pode virar um tapete voador. O teatro
tem um espaço para a imaginação que acho uma das coisas mais
bonitas do nosso trabalho.”

Bastou ler a sinopse, escrita pelo australiano Kim Crotty,
para se interessar pelo projeto. Baseado em eventos reais, o
texto narra a trajetória de um pai que, após um erro que o
levou à prisão, passa a inventar histórias para se manter
presente na vida dos filhos, durante visitas, cartas e
telefonemas. A imaginação vira o elo entre eles. Num primeiro
momento, Vladimir não reconheceu nada de sua vida naquele
personagem. “Eu nunca fui preso.Nunca errei como pai”,
pensou. Bastaram alguns encontros com a equipe para
perceber que o texto era sobre as escolhas que um homem faz
ao longo da vida. “Ele está confrontando a si mesmo e o risco
que suas escolhas trouxeram.” Aos poucos, a ficção abriu
espaço para a vida real.

Impossível não pensar nos próprios filhos. No ano passado,
Vicente, seu caçula de 19 anos, saiu de casa. Agnes, que tem
28, já havia seguido o mesmo caminho. Felipe, de 25, filho de
sua mulher, Adriana Esteves, e seu enteado desde os 6 anos,
também já estava com um pé dentro e outro fora. Aos 50
anos, completados em março, o ator deparou-se com o ninho
vazio. Para entender a nova fase, ligou para o pai, Arno. Do
outro lado da linha, a resposta de Arno foi breve: “Já passei
por isso.”
Vladimir ainda pretende retomar o assunto para entender
como o pai se sentiu quando a casa esvaziou. Porém, a curta
troca já foi suficiente para fazê-lo lembrar de sua própria
experiência com a parentalidade.
Após a separação dos pais, foi Arno quem o criou sozinho
em Salvador, enquanto a mãe, Carmem, recebia os filhos para
férias e feriados em Itacaré. Anos mais tarde, o exemplo do
pai ganharia um novo significado quando Vladimir precisou
enfrentar seu próprio desafio como pai.

Em setembro de
1999, aos 23 anos, ele ficou viúvo quando sua companheira,
Gena, morreu antes de a filha, Agnes, completar 2 anos. Na
época, precisou dividir o tempo entre o luto, os ensaios da
peça “A Máquina”, de João Falcão, e a criação da menina,
contando com a ajuda da própria mãe, que assumiu os
cuidados diários com a neta.
Veio então o convite para estrelar a peça no Rio. Agnes
passou a alternar temporadas entre a casa do pai e a da avó materna, em Aracaju, até que, numa dessas visitas, a exsogra se recusou a devolvê-la. Seguiu-se uma longa disputa
pela guarda. “Ela alegava que eu era ator, homem e jovem.
Portanto, não teria condições de criar uma criança”, ele
conta. Vladimir ficou meses sem ver a filha até que
finalmente a trouxe para o Rio.

“Ficar viúvo e depois lutar pela guarda da minha filha
me fez entender que ser pai era uma coisa muito
importante, muito valiosa.”

No mesmo período, a carreira deslanchava. “A Máquina”
tornou-se um sucesso, veio o contrato com a TV Globo e ele se
mudou de vez para o Rio de Janeiro. Aqueles anos moldaram
ainda mais sua maneira de entender a paternidade. Enquanto
mergulhava nessas reflexões, o passado da própria família
reapareceu de forma inesperada. Pouco antes de começar os
ensaios de “O Menor Palco do Mundo”, uma prima encontrou
cartas que o pai de Vladimir escreveu da prisão, onde esteve
durante a Ditadura Militar, para os avós do ator. Numa delas,
descrevia a visita do filho mais velho e se encantava com a
pureza do olhar de uma criança dentro daquele ambiente. Em
outra, anunciava que um novo bebê estava a caminho. Era
Vladimir, concebido enquanto o pai estava preso.
“Provavelmente fui feito com paixão e urgência”, brinca.

Ao reler aquelas cartas, o ator encontrou mais uma conexão
inesperada com o pai que interpretaria no monólogo. Assim
como seu pai, o protagonista do texto também tenta proteger
os filhos da dureza do mundo recorrendo à imaginação. “Meu
pai falava da pureza do olhar da criança, e é exatamente esse
elemento usado no monólogo para construir o vínculo com os
filhos”, diz. Aquele homem preso já não parecia tão distante
dele quanto na primeira leitura.

Outra configuração de família
Na vida real, a família tem outra configuração. Ao lado de Adriana,
com quem é casado há 20 anos, construiu uma dinâmica que
define como “os meus, os seus e os nossos”. Agnes cresceu tendo
Adriana como principal referência feminina. Felipe manteve uma
relação próxima com o pai, Marco Ricca. Vicente, filho do casal,
tornou-se, nas palavras dele, “a interseção” da família. Os três
compartilham o desejo de viver da atuação.

O trabalho nunca ficou restrito a tablados e sets de filmagem.
Não foram poucas as vezes em que os filhos ajudaram o casal a
decorar textos de novelas. Hoje, as conversas ganharam outro
tom. Agnes pede conselhos, enquanto Felipe prefere dividir as
experiências. Vicente, que começou a estudar interpretação
enquanto cursa Cinema, envia gravações das cenas e pede uma
avaliação sem concessões. A tarefa nem sempre é simples. “Eu
realmente desconfio de que sejam todos muito talentosos, com
características distintas. Mas um distanciamento frio eu não teria.
Se eu fosse fazer uma audição e colocassem meus filhos junto de
outros atores, eu seria afetado pela passionalidade mesmo.”
A maneira como fala da própria vida ajuda a entender essa
dinâmica. Vladimir quase nunca fala no singular. Ou as
histórias vêm acompanhadas de um “a gente” ou os verbos
aparecem no plural. Quando conta uma conquista, se lembra de
quem estava ao lado dele. Quando fala da carreira, ela quase
sempre vem acompanhada da amizade. Wagner Moura e
Lázaro Ramos estão ao seu lado desde os primeiros anos de
teatro. É com eles que divide dúvidas sobre personagens,
inseguranças, escolhas profissionais e até a educação dos filhos.
A amizade, diz, nunca deixou de ser um espaço de troca.

Depois de uma vida inteira construída no plural, estreia seu
primeiro monólogo justamente quando tenta reservar um
pouco de espaço para si. “Depois dos 50, talvez eu não seja uma
pessoa melhor para os outros, mas vou ser uma pessoa melhor
para mim.” Sozinho no palco, mas com a plateia cheia.

“O ninho vazio me afetou profundamente. Não é o mesmo
vazio vivido no espetáculo que estreia em outubro, mas
também fala da relação entre proximidade e distância com
os filhos. Isso é o que torna essa história tão pessoal.”

 

Fonte: https://vivo.com.br/content/dam/crm/revista-velvet/velvet_ed.25.pdf

Foto: Fábio Audi

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui