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Vladimir Brichta enfrenta timidez em peça solo sobre paternidade

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O destino do australiano Kim Crotty mudou radicalmente com uma batida na porta de sua casa em Bristol, na Inglaterra. Policiais o prenderam por cultivar cannabis, o que é proibido no Reino Unido. Foram dois anos na prisão de Dartmoor, onde a saudade dos filhos pequenos foi aliviada por uma estratégia artística: Crotty começou a escrever histórias para os meninos, somando um total de 47 contos entregues semanalmente aos pequenos Otto e Arlen.
Uma década depois, a experiência inspirou o australiano a escrever a peça O Menor Palco do Mundo, monólogo que chegou ao Teatro Vivo, em São Paulo, no último sábado, dia 10. “Como nosso público é mais adulto, diminuímos o número das histórias infantis, o que aumenta a própria reflexão sobre a paternidade dele com os filhos e também a relação com o pai, marcada por muita falta, violência, abandono”, conta o ator Vladimir Brichta, que encena seu primeiro espetáculo solo em 33 anos de carreira.
“Crotty narra também a relação do pai com a mãe, marcada por violência e ódio, o que o permite refletir sobre o masculino e como a gente cai na cilada de contar histórias para as crianças com heróis infalíveis, que não fracassam nunca, inabaláveis, o que perpetua uma imagem do masculino que é uma encruzilhada, um lugar sem saída”, continua o ator, que entra em cena no momento que vive particularmente uma reflexão sobre a própria paternidade, uma vez que o seu filho mais novo, Vicente, saiu de casa. “Eu já era pai fazia 28 anos.”
Crotty, que virá a São Paulo nesta semana, aprovou as modificações feitas no texto por Luiz Felipe Reis (também diretor do espetáculo) e Paula Picarelli, como a diminuição do número de contos e a inclusão de outro personagem. “A peça ocorre a partir de um improvável encontro cênico entre um autor australiano e um ator brasileiro”, diz Reis. Segundo ele, o que os cativou de imediato foi a possibilidade de falar sobre paternidade e, principalmente, sobre a distância que muitas vezes existe entre os homens e seus filhos. “Uma distância que não é apenas física, mas também emocional.”
“A peça permite que se discuta sobre esse homem, que repensa a própria história e descobre suas falhas ao longo da própria trajetória”, continua Brichta. “É como participar de um debate público sobre os equívocos, os erros e as inúmeras agressões desse pai, um homem que precisa refletir sobre suas escolhas.”
Tudo começou quando, após o término de seu relacionamento, Kim Crotty deixou o emprego no Salisbury Playhouse, renomado teatro localizado em Wiltshire, na Inglaterra, e se mudou para Bristol para ficar mais perto de seus filhos pequenos, então com 3 e 5 anos. Mas, em uma tentativa desesperada de sobreviver, ele acabou escolhendo um caminho que virou a vida de todos de cabeça para baixo, com a polícia desmantelando sua plantação de cannabis.
Para amenizar a dor da distância, Crotty criou histórias que incluem humor escatológico a partir de personagens divertidos como o Homem Meleca e o Bumbum Gosmento, cuja arma solta pum. “Tem ainda o Fred Dedão, um ladrão de tesouros, que são os catarrinhos. É o momento de maior graça e delírio da peça”, conta o ator.
Entre os contos selecionados, há também alguns mais sérios. Como o protagonizado pelo Super Peixe que, apesar de divertido, estimula discussões sobre assuntos delicados, como o medo. Segundo Brichta, o personagem é uma espécie de alter ego do dramaturgo australiano, que utiliza uma figura lúdica com coragem para dizer o que não falaria nem para um terapeuta.

Ausência paterna e batalha judicial

A ausência paterna como padrão de grande parte da sociedade, tema que impulsiona a peça, fez com que Brichta se lembrasse de um doloroso momento de sua história. Após ficar viúvo em 1999, ele enfrentou uma longa e difícil batalha judicial pela guarda da filha Agnes, então com dois anos e cuja custódia ficou com a avó materna, que obteve uma liminar de guarda provisória, alegando que o ator, por ser muito jovem (23 anos), não tinha condições para criar a menina.
Brichta ficou meses sem ver ou falar com a filha e quase dois anos sem conviver com ela no dia a dia. O processo durou cerca de cinco anos e, como nunca perdeu o pátrio poder e provou sua capacidade de criação, o ator conseguiu reverter a decisão e obteve a guarda definitiva de Agnes, hoje uma atriz. “Assim como Kim, vivenciei também uma dolorosa distância, mas não foi por abandono e sim por uma interferência. A lembrança que carrego dessa experiência foi o desejo de sempre estar próximo.”
Encenar O Menor Palco do Mundo permite que Brichta finalmente realize um plano há muito traçado. “Sempre desejei não passar por essa vida sem a experiência de estar sozinho no palco. Quando me senti preparado, comecei a elaborar um projeto, mas veio a pandemia da covid e tudo ficou suspenso. Quando voltamos à normalidade, retomei o projeto”, conta o ator que, entre suas dificuldades, destaca-se uma curiosa: a de enfrentar a própria timidez. “Essa inibição não é tão conhecida do grande público, mas ela existe e tenho também que lidar com isso principalmente no momento em que me dirijo à plateia, algo mais comum em monólogos.”
  • Quando: De 10 de outubro a 13 de dezembro de 2026. Às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h
  • Onde: Teatro Vivo (Av. Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi)
  • Ingressos: R$150 (inteira), R$75 (meia-entrada), R$50 e R$25 (ingressos populares), pela Sympla

 

 

 

Fonte: https://www.estadao.com.br/cultura/teatro-danca/vladimir-brichta-enfrenta-timidez-em-peca-solo-sobre-paternidade-e-como-um-debate-publico/

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