Para muitos, o palco pode ser um lugar sagrado. Entre tantas definições, é um espaço para o exercício da coletividade. Com essa convicção, Vladimir Brichta se prepara para estrear seu primeiro solo da carreira. O Menor Palco do Mundo entra em cartaz neste sábado (10) e segue até 31 de outubro no Teatro Vivo, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h. Dirigido por Luiz Felipe Reis, o espetáculo reflete sobre paternidade e masculinidade, temas caros ao ator de 50 anos.
Idealizada por Aura Cunha e Paula Picarelli, a peça parte do texto e do relato real do australiano Kim Crotty. O autor foi preso por cometer um erro e, da prisão, elabora sobre a distância dos filhos, a impotência diante do sistema e a própria existência. “Me interessei pela história de imediato”, afirma Brichta. “Fui pai cedo, aos 21, e ano passado meu filho mais novo, de 19, saiu de casa. A sensação de ninho vazio veio com força”, relata. Na trama, o sujeito lamenta a ausência na infância dos filhos pequenos. “Não entramos no debate da ilegalidade, o foco é o preço que ele paga por isso, que é a distância das crianças.” A partir dessa dor, ele tenta se reconectar por um viés lúdico, enviando cartas. O pretexto leva também a um pensamento sobre o pai dele.
O caso aconteceu na Inglaterra e, para criar um diálogo com a nossa realidade, foi adicionado um elemento pontual na performance, um outro personagem além do Kim, que proporciona um elo direto. Na dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, há um ator brasileiro que recebe o texto e reage à história, em uma espécie de metalinguagem. “Nesse processo, o ator começa a identificar algumas ressonâncias com aspectos da vida dele”, explica Reis.
O cenário se assemelha a uma caixa de papelão, que serve para o lugar desejado na cena, seja uma cela ou uma casa. O espaço multiúso também tem o propósito de operar em diferentes tempos, entre vivenciar as situações no presente, narrá-las como lembranças do passado e dialogar sobre elas com o público. “O confinamento nessa caixa viabiliza uma metamorfose. A prisão é uma espécie de espelho inevitável para ele olhar o homem que é. Ele começa a se questionar e colocar em jogo uma outra possibilidade de existência no mundo”, define o diretor. Ainda segundo Reis, o papel caiu como uma luva para Vladimir. “Ele é um ator muito sensível, com uma capacidade de fazer a gente rir e chorar sem ser apelativo; navega entre o humor e momentos emocionalmente densos com muita facilidade, presença e entrega. É um cara muito comprometido”, descreve.
O artista estudava havia alguns anos a possibilidade de fazer um solo e, finalmente, deu certo o desafio de ficar sozinho em cena pela primeira vez. “Não sou daqueles que ficam desesperados, durmo bem, não fico nervoso”, revela o ator. Porém, os hábitos têm sido diferentes desta vez. Com o dobro de texto que teria em uma peça com outros atores, as “pinceladas” para mudar o tom, a forma, a cor ou a dinâmica em cena ficam totalmente por sua conta. “É um processo mais solitário. Tenho acordado no meio da noite, penso no texto e durmo de novo.” Ele já vê aprendizados da experiência: “Com colegas de cena, sempre entrego a bola com agilidade para a outra pessoa, essa energia é uma característica minha. Estar sozinho me obrigou a aprender a respirar e permitir que o público respire”.
Vladimir Brichta nasceu em Diamantina, em Minas Gerais, mas se considera baiano de coração. Mudou-se para a Bahia aos 4 anos de idade, após um período na Alemanha. “Minha mãe conta que, quando eu tinha 3 anos, a escola em que eu estudava recebia a visita de artistas itinerantes e que eu voltava para casa dizendo que meu nome era o do artista”, narra.
De volta ao Brasil, entrou em um grupo de teatro amador aos 6, em Salvador, como forma de canalizar a criatividade. “Eu não ia bem na escola como meus irmãos. Quando subia no palco e fazia o cachorro de Os Saltimbancos, era a forma de conseguir elogios.” Assim, seguiu o caminho do teatro e formou-se em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia em 1993.
O espetáculo que projetou o nome do ator na cena cultural nacional foi A Máquina (2000), de João Falcão. A obra revelou o talento dele e de Wagner Moura, Lázaro Ramos e Gustavo Falcão. “A primeira impressão que tive dele é a mesma que tenho hoje: um cara alto-astral”, conta Lázaro. Os dois se conheceram antes da peça, em um teste para uma produção audiovisual. “Ele chegou falando com todo mundo, engraçado, piadista, deixando o clima leve. Depois, fomos juntos para Pernambuco fazer ‘A Máquina’ e aí deixamos de ser apenas amigos, nos tornamos família”, constata. “Como ele é surfista, dá para dizer que surfa na vida, como se fosse uma onda voando.”
Brichta, radicado no Rio de Janeiro desde 2001, estreou na televisão no início dos anos 2000, com papéis em Porto dos Milagres (2001), Coração de Estudante (2002) e Kubanacan (2003). Depois, fez as séries de comédia Faça sua História (2008), Separação!? (2010) e Tapas e Beijos (2011-15). Em 2016, retornou às novelas com Rock Story (2016- 17), Segundo Sol (2018), Amor de Mãe (2019-21) e Renascer (2024).
Também se destacou no cinema, especialmente com Bingo: o Rei das Manhãs (2017). Neste ano, participou de duas grandes produções. Em Velhos Bandidos, dirigido por Claudio Torres e lançado em março nos cinemas, contracena com Bruna Marquezine, Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e mais. Ele já havia trabalhado anteriormente com o diretor em A Mulher Invisível (2009). “É impossível não amar o Vlad!”, exclama Torres. “Não tem tempo ruim, entrega todas de primeira, com uma humildade rara.” Ele conta que há uma troca total entre os dois, na base da confiança. “Ele produz verdade quando atua, mesmo na comédia mais absurda.”
Outra novidade recente na filmografia do artista é Habeas Corpus, série de drama jurídico que estreou na Netflix no mês passado. “Além de me encantar pelo personagem, me encantei pela série, muito realista e necessária”, explica Vladimir. “Tem uma reflexão muito atual sobre como o universo duro do Judiciário se desdobra e chega nas áreas mais marginais da nossa sociedade.” A obra virou um sucesso e foi parar no topo das séries mais assistidas no Brasil. “O Vlad é uma das pessoas de mais bom senso que eu conheço na vida”, analisa a atriz e esposa Adriana Esteves. Os dois se conheceram nas gravações de Coração de Estudante (2002). “Ele tem uma paixão por ser educador, tem vontade de educar e mudar o mundo. Estamos juntos há 23 anos e acompanho a dedicação dele à vida, ele é muito humanista. Esse é o meu grande Vladimir.”
O artista tem dois filhos biológicos, Agnes, 28, e Vicente, 19. A primeira é fruto do casamento com a cantora Gena Karla (1971-1998), e o segundo, da união com Adriana. Ele participou de perto da criação de Felipe Ricca, 26, filho de Adriana com o ator Marco Ricca. No ano passado, Vladimir teve a alegria de ver Agnes no papel feminino da nova montagem de A Máquina, novamente com direção de João Falcão, no Teatroiquè, na Zona Oeste paulistana. “Ela e os meninos fizeram brilhantemente”, elogia. “Fiquei emocionado com a existência dessa peça. Quando pisei no palco, tive crise de choro, queria me aninhar no colo do João. Passou muita coisa pela minha cabeça.” Para Agnes também foi um momento especial. “Eu já era completamente apaixonada pela peça antes. Quando fui chamada, fiquei incrédula.”
Com apenas uma personagem feminina, chamada Karina, o espetáculo acompanha o jovem Antônio, vivido por quatro atores diferentes, na cidade fictícia de Nordestina. Quem fez o Antônio 1, o mesmo de Brichta, foi Alexandre Ammano, 28. “Eu e ele temos uma temperatura cênica parecida”, avalia Ammano. “É um ator versátil, que sabe transitar muito bem, tem um jeito de brincar e uma leveza em cena.” A estreia foi um marco para o elenco. “Tinha uma tensão ali, mas dava para ver o quanto ele estava torcendo por nós. O abraço depois foi muito significativo, vai ficar para sempre.”
Agnes chegou a atuar com o pai na novela Quanto Mais Vida, Melhor! (2021-22). Ela começou a fazer teatro aos 5 anos como hobby, sem imaginar que seria sua profissão. O pai “nunca barrou nem incentivou”, deixava espaço para que manifestasse os próprios interesses e apoiava com o necessário. “Ele é um pai que se interessava muito por saber quem os filhos eram e quem queriam ser. Em vez de moldar, queria descobrir”, diz ela. Quando Vladimir e Adriana estavam fazendo novela, Agnes pedia para ir ao set pelo menos um dia e viajava com ele em temporada de peça pelo país; ela amava ficar nas coxias. Os dois deram grandes ensinamentos para a jovem. “Eles fizeram um guia do que fazer na profissão: chegar pontualmente, tratar todo mundo bem e se divertir”, define.
Na vida, observa que Brichta sempre a estimulou a ter coragem de realizar vontades. “Me reconheço muito no meu pai. Falamos sobre tudo, sem parar.” Ela está animada para ver o novo espetáculo e acredita que vai se emocionar. A expectativa é que O Menor Palco do Mundo vá para outras cidades depois de São Paulo. Em paralelo, Vladimir tem o plano de lançar em 2027 uma peça de fora do país, da qual comprou os direitos. Também se interessa pela ideia de envelhecer junto de personagens, de repente retomando algum de sucesso do passado, e mais um desejo vem crescendo: o de estar atrás das câmeras e dirigir. “Tenho amadurecido a ideia, pode ser uma experiência boa”, diz, sem revelar muito. Descobriremos nos palcos ou nas telas.
Foto: Christian Gaul/Veja SP
Fonte: https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/vladimir-brichta-primeiro-solo-carreira-televisao-cinema/







